Este articulo nos lo envió Mauro Sergio Pacheco Escobar un Paipero de Río Grande do Sul (Brasil), que siempre ha estado colaborando con el sitio.
Esto lo escribió para una revista brasilera y decidió ademas compartirlo con todos los paiperos.
RELATOS DE VIDA
No Ano de 2003, inverno , um dia de poucas ondas na malvina, após ser rabeado por um jovem surfista, que com certeza teria idade para ser meu filho, após ser cobrado pelo seu ato, em tom desafiador, me disse : “eu pego onda na plataforma a três anos, sou local”. Tal colocação me tirou do sério e me fez ter vontade da narrar as experiências vividas pela minha ótica e quanto as minhas vivências dentro do surf, em especial da Malvina/Backdoor, os quais nunca tiro de minha memória em seus dias de glória.
O meu início no esporte seu deu no verão do ano de 79, no Imbé, com a aquisição de uma prancha IKE, 6.8, monoquilha, a cordinha era atada diretamente em um furo na quilha. Fui motivado por dois amigos do bairro Menino Deus, morava na av. Ganzo, na época, Nico que possuía apartamento no quebra mar, o qual não tenho mais contato e Dudu Schreiner, que tinha casa na rua da plataforma e pela última informação estava a exercer atividades junto a aviação civil.
Era uma época de grande dificuldade, principalmente de equipamento. Nessa época não existia a variedade de opções que hoje se consegue, como por exemplo : parafina , pranchas, cordinhas, roupas de borracha e pranchas. Me lembro de fazer parafina com resto de vela misturado a essências, cordinha feita de borracha de materiais hospitalares , usar no inverno tapete de borracha de banheiro costurado para fazer colete e pranchas ruins que chegavam até nós e ainda por um alto valor. Neste início a minha melhor prancha foi uma Rico, 6.6, comprado do amigo Alcino, vizinho de bairro e com casa no Imbé (hoje um colega advogado), trazida do Rio de Janeiro.

Foto com minha melhor prancha da época, Rico 6.6, monoquilha doblewingswallow Dez79.
No início da década de 80, em Imbé , vim a conhecer os primos do Alcino , Ronei, Denílson e Alex que começaram a fabricar pranchas, de nome Onda Rainha, o que mais se destacava na época era a inovação das pinturas. Alex já se destaca como um ótimo surfista. Desta época pegava onda o grande Klaus, hoje um brilhante cirurgião plástico. O Torrano(tora) já se destacava como o Kneeboarder local. Já era herói local o Felipe Silveira(Filipinho), com um surf inovador para época e pegava ondas onde não existiam. O Virgilio Matos era presença constante. Conheci o Luizinho, morador de Imbé e segundo informações o primeiro surfista a ganhar um campeonato na Plataforma de Tramandaí, o qual largou tudo precocemente para ter um estilo diferenciado de vida. Hoje é policial Rodoviário Federal e atende por “Sr. Tancredo”. Este me apresentou o Alexandre Pizatto, (Passarinho), o qual me mostrou um visão diferente de surf, baseada no respeito, pelo estilo e a busca das maiores ondas, sem qualquer outro compromisso. Nessa época ele já era engenheiro civil e possuía casa na Estrada do Rosa, na qual se mudou e mora até hoje em SC. Em respeito o chamava de mestre. No primeiros anos da década de 80, a barrinha, principalmente nos meses de março, rolavam altas ondas, com um banco de areia no outside.
Com o surf na barrinha vieram novas amizades, tais como Marcelo Fabris, Roberto Arus(Betão), Fernando Bragança, Roberto Coin(Betinho), Maurel entre outros . Até hoje são grandes amigos. Na esfera internacional eram heróis Mark Richard, Cheyne Horan e Shaun Tompson. No sul aparece o duelo Tuca e Filipinho.

Barrinha/Imbé no mês de março no início da década de 80.

Roberto Coin (Betinho) , início dos anos 80 na Barrinha/Imbé
Em função dos amigos Paulinho Beck e Vitor Adams(Alemão do Caí), que surfavam direto no píer, quando me escutavam dizer que havia rolado altas ondas em Imbé, usavam a seguinte expressão : “Na plataforma tinha canal e as ondas estavam maiores”. A partir de então, as ondas da plataforma passaram a serem perseguidas. Possuindo casa em Imbé, comecei no ato a ser discriminado pela situação, somado-se ao fato de não pertencer ao grupinho já formado. A abordagem a ser praticada seria de sempre posicionar-se no outside, se obtinha menos ondas , mas as maiores. Mas o principal era respeitar a preferência. O tumulto rolava solto para aqueles que insistiam em ficar em baixo. O primeiro que vi , com uma leitura correta do pico foi o Walter(Negão), com quem passei a ter um profundo respeito. Não tiro da lembrança as ondas que presenciei na ponta do “T”, seja na Malvina ou Backdoor , que terminava até os pilares, e, não raramente se cruzava os mesmos. Tive o prazer de surfar ondas maiores, em que se ficava a uns 300 metros atrás da plataforma, posicionando-se em frente ao “T”, podia a onda ser surfada no mínimo até o início da pontas do píer ou até o “banheiro”. Após ter a confirmação das afirmações dos dois amigos, comecei a ser presença constante no local.
Entretanto, à noite, era imperdível no Imbé o “TITANIC”. Possuindo uma estrutura precária, entretanto, sobrava em qualidade de público. Um dos donos era o Glauco, que surfava com uma “banana” de uns 9 pés ou mais de tamanho. Tinha um irmão, o Zuza, que as vezes trabalhava no bar e possuía muita habilidade no mar. Os freqüentadores eram basicamente os surfistas e as mais belas “gatas” da capital. Alguns tiveram problemas em função das rixas no píer . Anos mais tarde, Tramandaí, deu a sua resposta, com o “MEDIEVAL” , que mostrou extrema competência.
Simultaneamente comecei a pegar onda no Rosa, por influência do Alexandre Pizatto. Era um época romântica, que quem não viveu a época , certamente não acreditaria. Não havia luz e as casas se resumiam a “barracos de pescadores”. Os gaúchos começaram a comprar os terrenos próximos ao mar. Lembro de uma vez que fiquei ilhado pois tinha desbarrancado a estrada de terra na encosta do morro, que foi consertada após uns cinco dias. O “Gordo Orema” era o xerife do pico, principalmente nos dias grandes de sul, em que para se chegar ao pico, tinha que se remar desde o portinho para ter acesso ao “outside”.
No ano de 1984, passei no vestibular da PUC no direito, imediatamente comecei a trabalhar na área, o que começou a alavancar a carreira e o surf. Trabalhava e estudava de segunda à tarde a quinta a noite. O trabalho começou a me patrocinar no surfe , pois todo o dinheiro era gasto em pranchas , equipamentos , gasolina e viagens.
Tenho lembranças de surfar a praia Vermelha sozinho com alguns amigos. Todo o desgaste para se obter acesso ao pico, que era fechado, somente possuía na época uma trilha pela encosta do Rosa Norte . A praia era particular, da turma dos “GERDAU”. Era uma esquerda maravilhosa que ia até o canal e se adentrava ao pico sem molhar o cabelo.

Na trilha da praia Vermelha, Roberto Arus(Betão), Fernando Bragança, Alexandre Pizatto
(Pássaro), Pelé, Caju, Mauro Escobar e Vitor(Alemão do Caí).

Praia Vermelha 84, estilo mão na borda.
Nunca me esqueço quando da compra da casa na Estrada do Rosa , pelo Caju, Pelé e Alexandre , que com a maior camaradagem hospedava os amigos. Lembro do dia em que foi comentado da qualidade da água do poço, que era “geladinha e fresca”. Escutei alguns comentários desabonadores a meu respeito eu função de estar só tomando Coca-Cola , pois tinha medo da água “milagrosa”. Após alguns dias, todos aqueles que não adotaram o meu método, tiveram que ir ao médico para consulta, pois estavam “expelindo” vermes.
Rosa Sul, 1985, Roberto Arus(Betão), Fernando Bragança e Mauro
foto prejudicada pelo tempo, observe-se a geografia do morro e
pranchas 4 quilhas da época.
Em 1985, o Roberto Coin, começou a fazer pranchas com a marca Steerboard, após o aprendizado com o Batiere, shaper da Hotsurf, na época, hoje no Havaí. A partir daí começa uma relação entre fabricante/cliente e de amizade existente até hoje.

Roberto Coin e o seu primeiro lote de pranchas, 1985.
A fábrica de pranchas e consertos no verão se transferia para Imbé nos fundos da Casa do Roberto Arus(Betão). Sinale-se que foi do Roberto a descoberta em Capão da Canoa do talento de Sandro Neto, sendo seu primeiro apoiador.
Roberto Coin , 20 anos depois, 2005.
No ano de 1986, me aparece na casa do Alexandre, a irmã do Luizinho, Neca, que fora casada, com o finado e inesquecível Humberto Venzon( Barraco do Beto) de Imbé, com duas crianças pela mão, um era o Luciano Mattos(Fuka) e o Robinson(Padilha). Dos legítimos representantes locais de Tramandaí, que desde tenra idade se mostraram competentes nas ondas. Entretanto, o comportamento deveria ser ainda moldado, tive que ensinar a experiência que já possuia, apenas no surf, isto não se mostrou necessário. Até hoje sou chamado de mestre pelos dois. Tive dois marcantes fatos com ambos. O primeiro foi no dia em que tentei ir para a praia Vermelha pelo mar, contornando a ponta do Rosa Norte, quando cheguei no final pisei em vários ouriços, que me deram febre e me debilitaram, somado-se a isso quebrei uma das quilhas pelo meio e continuei a surfar. Tal insistência gerou vários pontos nas pernas e braços. Em função dos ferimentos para retornar teríamos que caminhar da estrada até a BR, para pegar o ônibus, caminho de alguns quilômetros, que no estado em que me encontrava certamente seria impossível. Os amigos que nos acompanhavam fizeram um rodízio nas minhas bagagens e pranchas para que pudesse enfrentar a caminhada. Quando chegou a hora dos dois, ambos se negaram. Entretanto como as passagens estavam comigo tive que tomar uma atitude, “urinei”nos dois tickets e os joguei na estrada. Tiveram que pegar as passagens encharcadas após incessante choro . Outro na Cigana, em que alertei que era para ir para trás do pico para pegar as maiores na ponta das pedras em detrimento de ficar no quebra coco onde estava perigoso. Não me atenderam, o Fuka , tentou pegar um tubo no inside e sofreu um corte profundo no braço. Para dar uma lição nos mesmos, disse que , teríamos que se deslocar até Imbituba para chamar um médico, e, que se não fosse dado os pontos em até uma hora, nunca mais fecharia o ferimento. Logo ambos constataram que o trajeto consumiria mais de uma hora, o que já tinha ocorrido na ida. O Fuka chorou incessantemente que me deu pena e o levei até o médico. Tal cicatriz se faz presente até hoje. Tais fatos geram até hoje muito divertimento , mas consolidou uma grande amizade com o Padilha e o Fuka. Mais tarde o Rodrigo Schenkel(Canigia) foi uma grande amizade.

-Fuka batendo forte no backdoor.
A plataforma começou a ser o local preferido em detrimento da barrinha e do Imbé. O respeito e amizade pelos nativos muito me ajudou, pois com meus horários de trabalho e estudo, possibilitava pegar ondas durante a semana, fora os dias que recebia ligações com a informação que estaria “clássico”, que imediatamente me deslocava. Entretanto, este livre acesso não era para todos, pois os surfistas do fim de semana quando apareciam nos dias da semana e em número reduzido eram “massacrados” pelos nativos por qualquer motivo. Tal conflito só se dava quando existia a proporção de 20 p/ 1. A gangue era liderada pelo Tikito, que era o melhor surfista do grupo. Me lembro do Marcelo Pão , num dia da semana ser corrido do mar por uma enorme turma, recebendo socos e ponta pés. Maior injustiça pois sempre fora um cara tranqüilo. O Tikito uma vez veio me consultar a respeito de um drama que estava passando. Trabalhava como salva vidas , não me lembro se de carreira ou contratado pela Brigada Militar, adorava caçar, um certo dia pegou um jacaré e teve a feliz idéia de tirar o couro. Deixou para secar no varal em frente a sua casa, a vista de todos. Os superiores da corporação presenciaram o fato e rolou o maior “gancho”.
O salvo conduto dos nativos, não me resguardava nos finais de semana, onde existia o grupinho hostil. Tive que mostrar personalidade para abrir o meu espaço, ocorreram vários embates, nos quais não me vanglorio, mas se fizeram necessários, sem citar nomes, para não suscitar conflitos do passado. Um deles tive que tirar da água um filhinho de dono de relojoaria, para a areia, sem antes, o mesmo pedir sem sucesso, ajuda aos seus conhecidos. O motivo era não respeitar a preferência e ficar embaixo para pegar a onda de quem vem lá de fora remando e já na onda. O mesmo fato se deu com um que foi juiz da Federação, que não respeitava, sempre no inside “rabeando”. Instigado a dar explicações, o mesmo me disse : “atolado, nunca vais me alcançar”. A resposta veio em seguida. Peguei a próxima onda, uma esquerda no backdoor na ponta do “T”, o esperto mais uma vez se colocou na onda mesmo me vendo e depois de alertado. Joguei o bico da prancha, que o atingiu na barriga da perna. Tal fato, segundo relatos de terceiros, ocasionou alguns pontos e vários dias sem surfar. A lição foi aprendida pois não ocorreram novos incidentes.
O ano de 1986, foi fantástico ao Brasil, pois após vários anos de pirataria das marcas internacionais, que teve como conseqüência a nossa exclusão das competições , é disputado na Joaquina campeonato com os maiores surfistas do mundo, rolaram ondas incríveis nas baterias iniciais, diminuindo o mar somente nas finais, vencida pelo australiano David Macauley.
No ano de 1988, tive uma prancha mágica, tropical Brasil, 6.6, o qual com certeza peguei as minhas melhores ondas na plataforma. Me lembro do dia 05/10/1988, um dia clássico, tubos e mais tubos na backdoor, as esquerdas na ponta do “T”, terminavam nos pilares, com canal que te botava para dentro novamente,era uma fábrica de ondas. Após quatro horas dentro do mar perguntei a namorada da época : viste alguma onda minha ? Resposta : Não, apenas o Betão com uma prancha tua. A decepção foi grande. Dois dias depois o Raul, surfista do Vale dos Sinos bate na minha porta e me apresentou um fotógrafo que lhe perguntou quem era aquele que aparecia na foto e pedia para fazer contato para mostrar uma foto. Estava na praia no dia 5/10 pára fazer uma matéria com o Lua e tinha obtido a sua melhor foto de um desconhecido, em um tubo com mão na borda. Após as apresentações foi procedida a venda da foto. A mesma gerou dividendo para o ego, como por exemplo, a sua colocação , a pedido do proprietário, no Titanic de Porto Alegre, ampliada na porta de entrada , facilitando as coisas com a mulherada, que era farta no local.
Mauro e Roberto Arus e a prancha mágica, Tramandaí 1988.

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Backdoor, outubro de 1988.
Relatei ao Lua, o fato ocorrido. O Luciano(Lua), mesmo jovem, era promissor , tendo obtido boas colocações nos campeonatos da época. Anos mais tarde , já formado, fui contrato pelo mesmo, para salva-lo de uma roubada ocorrida em um retorno de Tramandaí. Aconteceu o seguinte : um amigo “daqueles’, pediu carona para a volta, quando já na capital, ocorreu um acidente , que com a batida no veículo batido pelo Lua, uma criança que estava com uma mãe, teve um pequeno ferimento. O amigão disse : “vamos nessa, não dá nada”. O carro do Lua era de fibra, quando do acidente , o pára-choque ficou na rua inteiro, inclusive com a placa. Não demorou muito e a polícia estava na sua porta sob a acusação de negativa de prestação de socorro. Rolou processo criminal, devidamente resolvido, pois a autora vislumbrou uma pessoa boa no réu.
Havia em Porto Alegre, um novo espaço, de nome Dose Dupla, de propriedade de Geraldo Ritter, o primeiro campeão gaúcho, que abrigava um público seleto, sempre como tema o surf. Geraldo faleceu em um acidente indo para Santa Catarina e deixou um belo legado. Nessa época surge um novo personagem, o Giovanni Mancuso, que era um dos tutores do Lua. O Giovanni tinha ganho o Circuito Renner , foi um dos que me deu sinal verde para a cofecção do presente relato e me mandou um e-mail que dizia a respeito de quando nos conhecemos, que passo a transcrever :
“Eu jamais vou esquecer de uma discussão que tive contigo, na verdade a única que tivemos. Eu não te conhecia e te achava super antipático. Típico "grandão metido a malvado". Daí a gente disputou uma onda, ou sei lá o quê e eu me preparei para enfrentar "aquele monstro". Reza no manual dos baixinhos que a gente tem que se impor rapidamente, para mostra que, apesar do tamanho, não somos fáceis.
Eis que para minha surpresa, no lugar de um grandão irado, surgiu um "gigante gentil". Falaste em voz baixa e até num tom de quem está sendo injustiçado, algo como: "pô Giovanni, mas eu juro que não vi que tu vinhas na onda!". E eu lembro de te jogar na cara que te via sempre de cara amarrada e blábláblá...
Sei que a partir daquele dia passei a te enxergar de outra maneira e nunca mais pre-julguei ninguém dentro dágua daquele jeito. Foi uma lição”.
Na verdade eu aprendi, que quando tiver certeza da prioridade da onda, tenho o dinheiro que questionar o ato, entretanto, quando , estiver, errado, se deve ter a humildade de pedir desculpas e assumir o erro. Depois deste incidente surgiu uma relação cordial com o Giovanni ,inclusive com os seus amigos mais diretos. Entretanto ele não deve se recordar, de um fato, que começou com uma antiga namorada dele que praticava bodyboard, que me deu a maior enrabada na onda da série, sendo a preferência minha. Fiz uma cara de poucos amigos em resposta, tendo o Giovanni remado para o meu lado e me pedido para pegar leve .
Do meio para o final da década de 80, tive o prazer de conhecer as praias Uruguaias em várias oportunidades, entretanto, a primeira foi a mais marcante, e se deu num feriado de 7 de setembro, tendo ficado impressionado com a qualidade e potencial com a onda de La Moza, um direita que quebra de Sul em frente a um costão, situada na região da Fortaleza de Santa Tereza. E, Los Botes, esquerda em frente a uma bancada rasa, situada na região de La Paloma. Fiquei chocado com temperatura da água, que era muito baixa para os padrões de Tramandaí. No primeira vez que pulei das pedras na La Moza , quebrei prancha e rasguei a roupa de borracha. Em Punta del Diablo , me lembro de várias pessoas nas pedras olharem para o grupo de brasileiros. Parecíamos seres de outro planeta. Acompanhei várias vezes o Roberto Coin para venda de pranchas, em Santa Vitória, Chuí e para os surfistas uruguaios.

La Moza 1988.

Los Botes 87.
A partir da década de 90, ocorreu a minha formatura. O meu auto patrocínio me levou a metas mais ousadas. Começaram as viagens internacionais, o Peru era uma meta a ser alcançada, principalmente de ondas grandes.

O Peru com sua fantástica história e cultura, eram um grande atrativo. Machu Pichu, 1993.
A primeira viagem com destino ao país dos Incas, foi organizada por vários amigos, entretanto, no final, somente eu, Marcelo Fabris e o Roberto Coin embarcamos. O Roberto tomou o maior porre no avião, que quando chegamos em La Isla, estava quebrando de 6 a 8 pés e ele tomou o maior caldo.
O pico que mais me chamou atenção foi Punta Rocas, pois sempre tinha onda e com tamanho sempre superior aos outros locais.

- Observe-se o tamanho do surfista com relação a onda, Punta Rocas, 2003.

Marcelo Fabris, Marcelo Teixeira(Símio), Roberto Coin(Betinho) e Mauro Escobar, Punta Rocas, 1993.
Junta-se a trip o Marcelo Teixeira(Símio) de Imbé e seu amigo Guto, representante da Hang Loose no RGS e morador de Gramado, que estavam no mesmo hotel e tinham chegado a alguns dias . Guto era um cara muito bom astral e passou ao grupo toda a sua experiência da região. O Teixeira estava em grandes dificuldades, pois há alguns dias, em Cerro Azul, tinha sido atropelado por um paulista dentro do mar, que provocou um corte absurdo em toda a solo do pé e não prestou qualquer assistência, tão pouco uma carona ao hospital mais próximo para ser socorrido. As condições eram precárias, ocorreu vários pontos sem anestesia. Estava completamente impossibilitado de entrar na água. Por sorte alguns dias depois encontrei o “paulista” e um amigo em Punta Rocas. Me senti na obrigação de tomar uma atitude, pois me colocava na situação de ver toda uma viagem perdida por um brasileiro idiota. Fui direto intimidar o sujeito, que teve confiscado o relógio, todo o dinheiro da carteira e a roupa de borracha. Bens materiais não pagam este tipo de situação, no entanto, este cidadão pensará duas vezes em situação semelhante.

- As incríveis linhas de Punta Rocas.
Cerro Azul, foi uma onda que me chamou muita atenção, pela facilidade de chegar ao pico, se entra com água pelo lado da praia, com água no tornozelo, se pode conseguir inúmeras manobras, terminando numa plataforma, onde as pessoas ficam assistindo a sua performance.

- Cerro Azul e a dificuldade para entrar no pico.

Punta Rocas, o expresso rolando.
Entre os brasileiros que estavam hospedados próximos rolava a maior desconfiança por sermos gaúchos, tendo um capixaba dito a seguinte expressão : “Porto Alegre não tem nem onda e no Rio Grande não rola onda”, aquilo me deixou irado, mas fiquei frio. Tinha um carioca metido a big rider, que desembarcou sem dinheiro e vivia as custas de vender biquíni e canga para o mulherio. Após alguns dias Pico Alto começa a quebrar, Capilé, hoje praticante de Town in, queria saber quem era que estava já no pico, para a surpresa era o Roberto Coin, que aceitou tamanho desafio com uma 7.6. Tive que ir para Kontiki, pois minha maior prancha não era apropriada. A turma que debochava estava a perseguir uma ondinha menor, para fugir do sufoco. Em Punta Rocas, foi registrado o Carioca tendo que me “enrabar”, pois não tinha competência para o outside. Com 1,95 de pé, sobrava ainda onda em cima e baixo. Some-se a isso, o Marcelo Teixeira, depois de vários dias no estaleiro, não agüenta e cai no mar. O resultado não poderia ser outro, a noite os pontos abrem e começa a dar febre. Vou direto para o aeroporto para embarcar o amigo, que passa o maior sufoco. Guto o acompanha como um verdadeiro “brother”.

Esse foi o registro da postura adotada pelo suposto xerife carioca, Punta Rocas.
A partir daí acontece um fato que tem conseqüência nos anos vindouros. O Roberto Coin, consegue uma namorada local e fica completamente apaixonado. A moça é filha do Ministro do Comércio do Peru e as portas são definitivamente abertas. Após o retorno, o Roberto já pensa em voltar para sua amada e residir no país. O seu sonho se concretiza e tive inúmeras oportunidades de voltar , com um amigo já estabelecido. Era só ligar, para o Roberto ir para o aeroporto me resgatar, já com o boletim das ondas devidamente atualizado.

Cerro Colorado, com tamanho médio.

Cerro Colorado, já com a direita quebrando, com bom tamanho.
Voltando aos assuntos de nossa terra, cumpre relatar, as múltiplas agressões , oriundas dos pescadores baseados na plataforma. Me lembro que seu Presidente, em uma oportunidade depois de arremessar várias chumbadas em minha direção e proferir todo o tipo de ofensa, chama a Brigada Militar, que quer me prender pois me negava a sair da ponta do “T” na Malvina. Depois de várias tentativas fui obrigado a sair pelo mar junto a estátua da “Santa”. Não satisfeito, um dia depois no estacionamento em frente a plataforma, eis que surge o tal “presidente”, que com uma garrafa tenta atingir a um metro de distância, sem sucesso, o Hector, surfista que possuía apartamento ali em frente. A reação do mesmo, foi um direto no rosto deste cidadão que foi direto a nocaute. Segundo informações , após aquele episódio renunciou a seu mandato.
Em 1994, nasce a Danielle minha filha e mais ondas no Peru. Me lembro de estar no píer, com uma micro onda no “banheiro” no mês de março e no outro dia desembarcar com ondas entre 8 e 10 pés, no qual tomei o maior sufoco.

- Por do sol em La Isla.
Vale registrar a dedicação na manutenção das minhas pranchas, por parte do Clóvis e Cleber da Proibt Wave, além de algumas pranchas por eles finalizadas com shape do amigo Roberto. Legítimos representantes de Tramandaí, que muito evoluíram com o tempo.
Voltando ao Peru, gostaria de relatar a minha “detenção” no aeroporto de Callao. O país se encontrava em situação delicada, havia estado de guerra com o Equador, ficando prejudicado os deslocamento na busca as ondas no norte do país. Quando do embarque no aeroporto, adentrei na pista, e me dirigi com uma máquina fotográfica ao encontro aos aviões de guerra, que estavam estacionados ao lado militar da base. Imediatamente fui cercado por militares com armas apontadas, que me detiveram e me conduziram para local recluso. Após várias explicações e horas de espera, tive a máquina e filme confiscados. Após louvável interferência da saudosa Varig, fui embarcado com escolta no primeiro vôo da companhia.

Único registro da detenção
- Manobra em Senhoritas.
Por fim o romance do Roberto não prosperou, tento voltado a sua origem. No entanto as oportunidades a mim surgidas em função deste fato não me saem da memória.

O rumo do aeroporto para mais um retorno.

Cerro Azul, o início da sessão.

Cerro Azul o final da onda.

Punta Rocas, estou na primeira onda e Roberto na segunda.

Roberto Coin , Puerto Fidel.

Punta Rocas.

Secret, que rolava na beira da estrada, no meio do deserto.

La Isla, com interferência.
O novo milênio surge com novos desafios. Minhas atividades profissionais começam a me deslocar para o eixo Santana do Livramento, Rio Grande e Chuí. O sentimento fronteiriço aflora e a adaptação aos usos e costumes tem que serem procedidas. Já me encontro com uma idade mais avançada em que se pensa duas vezes para tomar certas atitudes. No mar não tive dificuldade em me readaptar, primando pelo respeito ao próximo não tive problemas. A região de Rio Grande possui uma onda mística junto a um navio naufragado de nome Altair, que quebra com qualidade algumas vezes durante o ano. Em funções do tamanho dos molhes a ondulação é barrada e várias vezes fiquei pensando como deveria estar na Malvina/Backdoor.
O místico pico do navio Altair, que esta naufragado a alguns quilômetros do Cassino.
Uma outra opção de qualidade é São José do Norte, praia do Mar Grosso e junto ao molhe. Com vento sul rola uma boa direita. Entretanto a região possui um isolamento estratégico , com sérias dificuldades de deslocamento. Mudar esta situação seria alterar a sua riqueza histórica e cultural. Já no Chuí, é possível o intercâmbio com os irmãos uruguaios e sua ondas.
Com altura avantajada fico diminuto ante o potencial de La Moza.
Um fato marcante , adotado pelo Uruguaios, que deveria ser adotado em nossa terra, é demonstrada pelo monumento confeccionado a um dos pioneiros do surf local, na praia de Los Botes, o qual presto o meu maior respeito. No Rio Grande Sul vários surfistas que já tombaram no passado e recentemente não sofreram as homenagens devidas, é um exemplo a ser seguido.
O monumento dos uruguaios a surfista desbravador falecido, deve ser seguido , Los Botes.
O surf no Uruguai evoluiu bastante desde as minhas primeiras visitas, existe hoje surfistas de todas as faixas etárias. Os equipamentos brasileiros são muito bem conceituados e podem ser adquiridos com bons preços no Chuí. As pranchas uruguaias mostraram evolução com o tempo. A grande reclamação dos hermanos é a falta de cordialidade em algumas praias brasileiras, como o Rosa e em Torres. A malvina e backdoor são desconhecidos pelos mesmos. Não tive qualquer incidente na região nestes últimos anos, as coisas vieram ao natural. Além do atrativo das praias, a gastronomia local, a dedicação ao registro dos monumentos históricos tais como Fortaleza de Santa Tereza e Forte de São Miguel são um forte atrativo. O nascer do sol, sentado nos bancos com vista para o mar em La Pedrera é maravilhoso.
O site do Paipo é muito bem estruturado, com ótimas fotos. Mandei algumas fotos prestadas no final de 2006, que foram prontamente respondidas pelo Juanto, que viraram a foto do dia. Quando no chat existente on line , onde pessoas que não me conheciam, usaram as seguintes expressões : “poroguero”, “mamadera”, “maracanaso”, “roubava o alimento dos uruguaios com a pesca predatória por pescadores brasileiros” e “que teriam sido mal tratados nas praias brasileiros”, o Juanto prestou a minha defesa e o problema foi superado facilmente.

Onda do dia no site.

Galeria del Paipo 27/12/06 La Moza - Por Mauro Escobar la moza7
Foto constante no site.
A onda em La Moza é temperamental, ela não mostra as suas garras constantemente o que gera uma certa desconfiança daqueles “recém chegados”. A entrada do pico em dias grandes, requer um cuidado todo especial para se jogar das pedras. Presenciei muitos gaúchos de Rio Grande e Pelotas pagarem os seus pecados por falta de experiência. Neste meio tempo nasce minha outra filha Isabella, a quem muito me orgulho.

Nestes dias a entrada pelas pedras requer cuidado todo especial, La Moza.

Praia do Cerro Chato.

La Moza , mostrando as suas garras.

Pronto para dar o bote em La Moza.
Na minha ótica o esporte nunca teve uma visão de competição, mas sim como filosofia de vida para enfrentamento dos seus desafios. Tive que trabalhar muito para bancar tal pensamento, mas não me arrependo. As indagações aqui expostas com certeza vão suscitar os seus personagens do esplendor vivenciado, que os mais jovens devem ter conhecimento. As fotos aqui apresentadas são meros registros amadores da época.
No entendimento que “o saber é melhor que a ignorância, a história melhor que o mito”, devemos fazer uma análise profunda do que fomos e o que somos para saber o que seremos no futuro. Tal analise se faz ante aquela indagação do jovem surfista no começa deste relato, que desconhece a herança do local e esta a forjar o seu próprio espaço, como outros fizeram no passado. Mas uma coisa posso dizer com toda a certeza, agora que estou longe, não troco onda no mundo por um dia clássico na Malvina/Backdoor.
Mauro Escobar