Com Linden em 2004.
Mancuso e o quiver em 1987.
O Daniel Riolfi é um dois maiores shapers do sul do Brasil, sendo um privilégio ao PAIPO a realização desta matéria. O lendário Giovanni Mancuso nos dá a introdução da entrevista.
Shaping
Peru 2009.
Mauro,
Pode reproduzir o seguinte sobre o Dani:
Sempre esteve um pouco à frente do seu tempo. Foi um dos primeiros shapers gauchos e perceber que precisava de um estágio na California para aprimorar a sua técnica. E mais do que isto, ele conseguiu buscar as orientações do mestre naquela época, nada mais nada menos do que Gary Linden.
Eu tive a sorte de poder encontrar o Dani exatamente neste período. Ambos estávamos no auge. Juntou a fome com a vontade de comer. Venci inúmeros campeonatos surfando com o que havia de mais moderno em termos de design.
E depois disto, o que ficou foram lembranças maravilhosas e uma amizade bacana.
O que tu achas, Maurão, chega?
[]s
GM
Ocean side 1985, com Linden com logo da Yahoo.
ENTREVISTA
1 – Nome ? Idade ? Daniel Riolfi, 48anos, nascido em Porto Alegre, shaper desde 1979, formado em Administração de empresas na PUC-RS em 1990.
2 – Quando iniciou no surf ?Por volta do final da década de 70, motivado pelos amigos do colégio.
3 – Como começou a ser shaper ? Acredito que foi uma conjunção de motivos que culminaram em um momento crítico da minha vida, na adolescência. Minha habilidade em trabalhos manuais já estava ali, no sangue, pois meu bisavô paterno era um ferreiro de mão cheia. Unido ao meu instinto investigativo e a falta de grana para comprar pranchas novas na adolescência, me empurraram a tentar produzir minhas próprias pranchas. Sou naturalmente uma pessoa muito exigente e detalhista em, em tudo que faço. Em função disso, o resultado final, mesmo das minhas primeiras pranchas, foi muito satisfatório. E isso logo chamou a atenção dos amigos que imediatamente começaram fazer encomendas.
4 – Fale um pouco da sua ligação com o “mestre” Gary Linden ? Conhecer o Gary, e ter tido a oportunidade de trabalhar ao lado dele, na Califórnia representa um marco importantíssimo na minha carreira de shaper, e na minha vida. Tive a oportunidade de trabalhar com ele em uma fase extraordinária de sucesso da Linden Surfboards em 1985 e 86, justamente quando foi considerado pela revista Surfing, um dos melhores shapers do mundo. Plantamos uma amizade e respeito que perduram até hoje. Seu amor ao surf e ao seu trabalho como shaper, lhe confere uma enorme responsabilidade e respeito perante a comunidade do surf mundial.
5 – Qual sua opinião sobre o relacionamento entre surfista e shaper para o desenvolvimento do surfista e das pranchas ?
Assim como um piloto de F1, deve dominar os fundamentos de mecânica dos carros que pilota, um atleta profissional deveria entender sobre os fundamentos da sua prancha.
Não consigo imaginar a evolução dos designs e o aprimoramento da performance das pranchas, sem a interatividade e troca de conhecimento desses dois profissionais, em um trabalho em conjunto.
6 – Fale um pouco de suas principais surf trips ? É muito difícil responder essa pergunta, pois sempre curto muito as surf trips, mesmo as que são para perto, mas sem dúvida morar na Califórnia nos anos 80, foi o maior choque cultural que tive em toda minha vida e uma surf trip que durou quase 2 anos...Minha primeira surf trip internacional, também foi muito marcante, quando atravessamos a Argentina e o Chile, rumo ao Peru, com um Dodge Dart 1972, especialmente preparado para a viagem. Isso ainda em 1980.
7 – Quais as grandes dificuldades dos shapers no passado e no presente ?
No passado não tínhamos acesso a informação. A grande maioria do que se fazia era na base do experimenta e vê o que vai dar. Hoje na internet temos acesso a tudo, desde medidas até vídeos de como fazer prancha. Por esse motivo muitos pensam que sabem tudo, mas no fundo, existem as entrelinhas, que fazem a diferença, e só se adquire com o tempo e a experiência.
8 – Como foi voltar a Califórnia depois de algum tempo e fazer pranchas novamente ao lado de Linden ?
Foi como se estivesse revivendo um filme. A oficina da Linden continua funcionando no mesmo pavilhão, que fica a duas quadras do mar, em Ocean Side, há mais de 25 anos. Entre a praia e a oficina passa uma linha trem que vai de San Diego a Los Angeles, e como nos filmes, o trem buzina quando passa nos cruzamentos. E isso nós acompanhávamos diariamente enquanto estávamos trabalhando em 1985. Em 2004 passei uma pequena temporada lá surfando e aproveitei para ajudar o Gary a shapear uma produção, nessa mesma oficina onde pude reviver todo o clima de 19 anos atrás, com direito a ouvir aquele trem novamente. É como se o tempo não tivesse passado pois eu estava novamente ali no mesmo local, fazendo a mesma coisa...Isso realmente não tem preço...
9 – Qual sua opinião sobre esta onda “retro” de pranchas com shapes dos anos 70 e 80 que vive o surf atualmente ? O surf hoje está diretamente ligado a moda, por mais que não queiramos admitir. E assim como na moda, enjoamos das coisas rapidamente, e é preciso inventar novas coisas para que o mercado siga seu fluxo de consumo. Como não é possível inventar infinitamente coisas a toda hora, pois a criatividade sempre é mais lenta do que o mercado, as coisas se repetem com uma nova leitura. Particularmente acho muito positivo a releitura de designs antigos. Assim todos são influenciados a saberem como funcionam os designs de pranchas antigas. Fato que enriquece nossa cultura surfistica.
10 – Qual a diferença de uma prancha comprada numa “surf shop” para outra feita por encomenda ?
Se a prancha for feita por um bom shaper , não vejo muita diferença. A chave do negócio é escolher uma prancha que se adapte às diferentes necessidades de cada surfista. O problema começa a acontecer, primeiro pela falta de preparo técnico dos atendentes de loja, que na grande maioria das vezes nem pega onda e tenta agradar o cliente com informações nem sempre corretas. Muitas vezes ridículas. Além disso sabemos que as necessidades de cada surfista são muito diferentes, fato que requer um estoque bastante variado de modelos para atender bem a todos os gostos, mas a maioria das lojas não está interessada nesse tipo de investimento.
Shaping.
Yahoo Surfboard.
Secret.
11 – Qual sua opinião sobre o shaper que pega onda , para aquele que nunca surfou ?
Um é shaper, o outro é comerciante.
12 – Quais os novos materiais que vem ajudando na fabricação das pranchas e qual sua importância ?
Existe atualmente uma galera fazendo experiências com diversos materiais, mas acredito que a cultura da prancha de poliuretano ainda é muito forte, infelizmente. A prancha de epóxi, está conseguindo quebrar um pouco essa hegemonia,
mas também não chega a ser revolucionária. Acho que ainda está para surgir um material revolucionário. Espero que não demore, pois estamos devendo isso ao meio ambiente também...
13 – Conhece as ondas do Uruguay ?
Conheço algumas ondas apenas, mas sei que existem muitos picos que quebram altas ondas. Pretendo voltar mais vezes para conhecer e surfar mais na região.
19 – Qual sua mensagem ao surfista que hoje esta começando a pegar onda ?
Que respeite o mar, o meio ambiente e o crowd. O resto é só alegria...
14 – Qual sua opinião sobre as pranchas de epóxi ?
A prancha que o mercado chama genericamente de “Epóxi” que é com miolo de EPS ( Isopor), revestida com resina Epóxi, é uma alternativa dentre os materiais possíveis para se fazer uma prancha de surf, e não vejo como algo revolucionário que venha a substituir as tradicionais. Essa configuração de materiais tem um “flex” diferente, e portanto um funcionamento diferente na água. Tem surfista que se adaptou bem, já outros não gostaram ou não se adaptaram. Mas na minha opinião, essa é apenas uma opção a mais.
15 – O que um surfista nunca deve fazer quando esta fora de seu país ?
Não faço distinção de local. Fora do país, ou no seu pico local, o surfista deve ter respeito com todos, além do meio ambiente em que se encontra. Os brasileiros tem fama de mal educados em todo o mundo. Isso é muito ruim e acaba prejudicando a todos.
16 – Qual a diferença do shaper que usa máquina de shape para o que não usa ? Quais vantagens e desvantagens ?
Uma maquia de shape, seja ela computadorizada ou não, serve para diminuir o trabalho braçal que o shaper tem para desbastar o bloco. Simplesmente isso. Se o cara não sabe o que está fazendo na espuma manualmente, não é a máquina que vai modificar essa situação. Existem muitas vantagens de usar a máquina, e a mais importante a meu ver, é o fato de poder repetir com fidelidade um mesmo design, que funcionou bem. Podendo ser alterado apenas em alguns detalhes, para teste e aperfeiçoamento. Isso sem dúvida proporciona uma evolução mais rápida do design. Sem contar no trabalho braçal de ficar desbastando manualmente o bloco. É uma ferramenta maravilhosa.
17 – Qual o atleta usou suas pranchas que mais lhe ajudou a desenvolver os equipamentos ?
Tenho boas recordações do trabalho que fiz com o Giovanni Mancuso. Um atleta que logo percebeu a importância de entender de medidas e discutir com o shaper suas preferências. Giovanni foi Campeão Gaúcho com uma YAHOO, em uma época onde trabalhamos bastante esse intercâmbio de informações, para desenvolver um design que se adaptasse ao surf de manobras fortes e nossas ondas com pouca força.
18 – Qual o futuro do surf no Brasil ?
Não me atreveria a predizer o futuro, apenas constatar que o surf no Brasil, é um esporte consolidado e que já faz parte da nossa cultura cotidiana. O que percebo é que existem mundos diferentes, convivendo paralelamente no Brasil. Ou seja, vemos um mercado de moda surf milionário, convivendo ao lado de competições com fraca premiação, e atletas pobres, com falta de patrocino ou patrocínio ridículo. E ao mesmo tempo, tem uma galera que não se importa com nenhum desses dois fatos, mas segue surfando e se divertindo nas ondas. Para onde isso vai, eu não saberia dizer...
Monoquilha em Punta Rocas.
Chile para Peru, rodovia Panamericana 1980.
Shaping.
19 - Deixe uma mensagem final ?
Essa semana conversando com Fred D’Orei, que é um cara que gosta de uma polêmica, durante o salão Náutico em Porto Alegre, onde foi convidado como palestrante, discutimos um assunto interessante que eu acho que vai ganhar força daqui para frente.
E aproveito para deixar como mensagem a pergunta que resume o assunto:
Qual a vantagem, para o surfista comum, que pega onda por diversão, o aumento do mercado surf???
As empresas faturam cada vez mais, reinvestem pouco nos atletas, e ainda fomentam o crowd...
Será que estamos no caminho certo?
Obrigado por essa oportunidade.
Boas ondas,
Daniel Riolfi
Com o filho Lorenzo.
Shaping.
Shape room , Peru 2004.
Biquilhas 1981.
Malibu 1986.
Ocean Side 1985, Linden.
California 2004.
Los Angeles, 1986.
Km 38 , Mexico.
Peru 2004.
Zicatela, 1996.
Rusty, 2004.
Peru 2009.
O Dani é um profissional de alma, perfeccionista na sua essência e tem o surf no seu interior.Sua história é respeitada tanto no Brasil como no exterior. Suas pranchas estão espalhadas ao redor do mundo.Sempre acreditei no shaper que pega onda e este é caso do Dani, sempre na busca da onda perfeita. Até a próxima, Mauro.
Rosa Norte 1983.
Com Linden 2004.
Imbé 1980.
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