Em uma de minhas últimas matérias contei alguns relatos de incidentes ocorridos no passado. O nosso amigo Pichibull ficou chocado com o destino dado a um surfista de São Paulo. Com muitos anos de surf, muitas anecdotas tenho a contar.
HOTEL VIKINGOS – PUNTA HERMOSA
O Hotel Vikingos foi parada obrigatória nas trips peruanas. Situado a frente da baia de Punta Hermosa tendo a frente as ondas de La Isla, ao sul El Silêncio, no outside Kontiki e ao norte Punta Rocas. O dono era o Sr. Vikingos, senhor de idade, cabeça branca de origem do norte da Europa. O seu grande ajudante era o grande “Tatoo” e seu 1,30 de altura. Os dias eram intensos com o surf, poucos eram os dias de flat. O restaurante do hotel era no segundo andar de frente para o mar. O cozinheiro era muito gente boa, mas o menu ficava restrito aos pratos da cozinha peruana. Estranho ao gosto dos habitantes do pampa, acostumados com churrascos, asados e parrilas. Já há muito tempo o velho Vikingos depois de algumas “birras” dizia que era muito estranho os surfistas, pois só falavam de mar , ondas, tablas.....Nunca apareciam com mulheres ou levavam ao hotel as “chicas” locais.
Na primeria foto o Hotel Vikingos, o restaurante ficava no segundo andar. Eu com mais dois que participaram das "festas".
Na segunda foto, "Tatto" o gigante de 1,30 m de altura.
Em uma noite o veterano voltou com o mesmo assunto e na mesma hora disse que os gaúchos pensam em outras coisas além do surf, quanto aos demais hospedes não saberia. O Sr. Vikingos após muitas cervezas Cristal disse que duvidada e que abriria o restaurante a hora que fosse para recepcionar as possíveis convidadas.
O desafio foi tomado como aspecto de honra. Peguei o auto já locado e fui a Lima. Cidade imensa , mas de poucos bairros acessíveis e com bom nível de vida. Após uns contatos em Miraflores, o “Bizarro” foi o local escolhido. Casa noturna com muitas opções. Havia 8 salões, um só tocava regaee, outro rock, outro música do Caribe, sons peruanos, Pop, dance, eletrônico e outro era um bar com muitas opções de bebida. Entre Brasil, Uruguay e Argentina, entendemos perfeitamente os idiomas e muitas vezes o portunhol é falado. No Peru é diferente. O língua do Brasil não é muito entendida. Seguidamente me diziam : “hablas con espacio”. A partir disso surge uma professora de inglês e duas alunas. Por sermos os únicos no local com tipo físico diferente, já vieram fazer contato. Como eu era o único que dominava o inglês prometi leva-las ao mais lindo nascer do sol do Pacífico. Não demorou muito e todos estavam na estrada saindo de Lima.
Já era madrugada quando todos chegaram ao Hotel.Na mesma hora fui ao restaurante. A bebida e comida estava liberada. Nisso outros se somaram a trip original. A festa foi grande . As 7:30 com o serviço feito fui pegar algumas ondas em La Isla. Outros continuaram o “serviço”. Resultado : toda a bebida e comida tinha sido consumida e várias camas quebradas. Nada pago ou indenizado. As 19:00 horas Tatoo a mando de Vikingos levou as amigas embora. Depois dessa o Sr. Vikingos não me provocou mais e essa história muitas vezes é lembrada em Punta Hermosa.
Na primeira foto algumas "chicas" locais. a professora é "rubia" ao meu lado.
Na segunda foto, La Isla a frente e no outside Kontiki quebrando. Na ultima foto se preparando para mais um surf depois da noite intensa.
O AMIGO
Luciano , mais conhecido como Lua era um grande surfista da Malvina/Backdoor, muitas competições e já a algum tempo mora em Niterói e pega onda em Itacoatiara. Num domingo de inverno com boas ondas na Malvina Lua ficou até mais tarde no mar. Vi na saída do mar um surfista pedir carona para a volta a Porto Alegre. Esta pessoa era o maior pé frio andar com ele. Um surfista que lhe dera carona para o Rosa tinha capotado o auto e outro o motor tinha pegado fogo. Quando ele aparecia em algum pico eu saia de perto. Lua deu carona. Já chegando em Porto Alegre, o Lua bate na traseira de outro automóvel . O amigo disse na mesma hora “não da nada” vamos embora. Mesmo sendo culpado foi pelo conselho do amigo e foi embora sem ver o que tinha ocorrido.
Havia uma senhora com seu filho no carro que foi batido. A criança bateu com cabeça no vidro e teve um ferimento leve. O auto do Lua era um modelo todo de fibra . Ele não viu, mas no acidente o pára-choque inteiro com a placa soltou e ficou na rua. Lua levou o amigo até sua casa e quando já havia chegado na sua foi surpreendido com a polícia em sua porta. Imediatamente foi preso e levado a Delegacia. O placa que ficou presa no pára-choque deu os dados que a policia necessitava.
Como advogado fui chamado as pressas no meio da madrugada para ajudar. Consegui sua liberação, depois de muitas explicações e conversas com a mãe da criança. A queixa foi retirada e muitas desculpas foram dadas. Por pouco sua carreira não foi prejudicada. O “amigo” nem apareceu, nem ajudou no prejuízo. O Lua é um surfista do bem. Amigo desses não quero nem perto.
Na foto o backdoor, local onde apareceu o"amigo" no final da tarde de um domingo.
AGUA FRESCA
O Alexandre Pizatto , mais conhecido como “passarinho” é uma figura lendária no Rosa. Eu e uma “trip” de amigos chegamos para conhecer e se hospedar na sua casa recém adquirida e ficar a escutar as suas histórias. O Rosa naquela época era selvagem, havia poucos recursos disponíveis. A estrada era toda de barro, não havia água e luz eram poucas as casas que tinham. Só o bar do João funcionava. Não havia caminho para o Rosa Norte, que só era alcançado depois de uma caminhada de 40 minutos subindo morro. Nessa época a grande sensação eram as pranchas “quatro” quilhas inventadas por Ricardo Bocão. Eu tinha uma HOT SURF feita pelo shaper Batiere, hoje no Havaii.
Havia ao lado da casa um poço. O passarinho mostrou a todos onde se podia buscar água e lembrou que era fresca, limpa e “geladinha”. Esta foi uma das poucas vezes que discordei de suas idéias. Todos tomaram da água milagrosa, sendo eu a única exceção. Me chamaram de tudo por só tomar água mineral e Coca Cola. Depois de 4 dias todos que beberam a água milagrosa estavam colocando “vermes” para fora. Não sei em espanhol o nome ,mas os “seres” lembravam aqueles que aparecem no pêssego (durazno) , só que um pouco maiores.
Peguei muitas ondas no Rosa e Vermelha, e o pessoal da trip a base de muitos remédios ficaram com o surf prejudicado por alguns dias, sempre que se dirigiam ao banheiro colocavam alguns “bichos” pra fora.
Na primeira foto, backside na praia Vermelha
Na segunda foto Rosa Sul e as pranchas 4 quilhas.
Na primeira foto Rosa gigante.
Na segunda Silveira quebrando.
ROLLING STONES
Desembarquei na cidade do México depois de uma viagem longa e de muitas escalas. Como todos os surfistas troquei de avião e fiz conexão para Puerto Escondido. Avião movido a hélices sem muito conforto . Chegando ao pico, durante cinco dias o surf foi igual, das 7:00 da manha as 11:00 horas boas ondas na frente do Hotel(Zicatella), depois o vento prejudicava o surf . No final da tarde La Punta era uma opção a ser conferida. Onda forte na beira tubular. 1,0 a 2 m , não era fácil sair dos tubos. Foram raros os que consegui.Mas sempre me jogava apostando no backside. Não queria fazer a trip que todos faziam. Naquela época não havia previsão de ondas pela internet, ficávamos mais perguntando para os locais e para as mudanças de lua. Escutei uma possibilidade de um bom sweel. Na mesma hora pensei no big surf de “Todos os Santos”, auto locado fui em direção a “Baja Califórnia”. Depois de quase dois dias perdido nas estradas e com poucas informações, pegando algumas ondas de picos sem nome conhecido na beira da estrada.
Fotos de cima do hotel Puerto Escondido/Zicatella.
La Punta a opção do final da tarde.
Cheguei a noite na cidade de pescadores de nome Ensenada. Dormi e logo cedo peguei um barco que levava a Todos os Santos, num trajeto de 40 minutos mais ou menos. De cara deu para notar que estava flat. Fiz de tudo para sair de um pico que estava melhor. Conheci um brasileiro do Rio de Janeiro e dois americanos de Los Angeles, que estavam na mesma situação. Os americanos falaram que em função de não haver nada de ondas seria uma boa opção voltar a capital e tentar assistir o show dos Rolling Stones. Me juntei a trip e não me arrependo. Foram momentos inesquecíveis. Show patrocinado pela Coca Cola, que rendeu um CD do show. Fora de meu país pude assistir uma grande banda e alcançar um grande sonho.
Nas fotos a maior banda de rock.
TABLA
Nas duas fotos , os desenhos de Nazca, só vistos de certa altura, feitos no meio do deserto.
Estava viajando ao sul do Peru para conhecer as famosas linhas de Nazca, que são desenhos de figuras imensas esculpidas no meio do deserto, que só podem serem vistos do alto. Um grande mistério das civilizações antigas do local. Mas o surf nesta trip sempre era feito. Numa das poucas curvas da Rodovia Panamericana havia um pico que da estrada se via boas ondas . Um belo point breck. Na primeira onda vi que a maré estava baixa e em certos momentos da onda o fundo ficava muito raso. Por ser o mais alto e mais pesado de todos sabia que poderia ter problemas. A onda não era muito grande mas bem longa e oferecia varias seções. Se podia fazer muitas manobras.
No meio de uma onda, fui arremessado a frente. As quilhas tinham, sido presas no fundo, pela “rocas”. Perdi duas quilhas, a do meio e da esquerda. Sai do mar e fui pegar outra prancha que estava no carro. Depois de duas ondas, novo acidente e mais uma quilha perdida . Além de mim somente outro amigo trincou uma das quilhas.
Nesta viagem tinha trazido um quiver de 4 pranchas. Duas já estavam com problemas. Os tamanhos eram 6:8 e 7:00. Depois do incidente e alguns passeios voltamos a Punta Hermosa . Estava parando na pousada da Mama Vidal . O Roberto Coin meu amigo que é shaper não gosta muito de fazer consertos , mas tinha todo o material. Ele me falou que estava muito molhado o local a ser consertado, que deveria secar antes de fazer o remendo. Subi no telhado da pousada e deixei as duas pranchas ao sol para secar. Fui a Punta Rocas e no final da tarde me lembrei das pranchas. O sol do deserto é diferente do que estamos acostumados. As duas pranchas tiveram o bloco regredido. Quando as peguei na mão, estavam mole. As duas ficaram com as marcas dos dedos e perderam forma. Resumo duas pranchas totalmente perdidas. Fui alvo de muitas risadas e piadas principalmente de um grupo de brasileiros, do Rio de Janeiro. Acho que deveriam ser das favelas do Rio, pois viviam no Peru de pequenos roubos e na venda de mercadorias trazidas do Brasil como biquínis e batas.
Na primeira foto, chegada ao pico no meio da estrada
Na segunda foto as ondas que rolaram , que custaram 2 tablas.
Na terceira foto entrada de Punta Negra.
Na quarta estou no meio dos brasileiros do Rio de Janeiros, "los favelados", que muitas piadas me diziam.
Estes, foram alguns momentos meus ligados ao surf, espero que tenham gostado e entendido. Pois se quiserem, tem mais. Um abrazo até a próxima.Mauro.
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